A carne só cai no prato do vegano

Tema: A carne só cai no prato do vegano

Por: Jairo de Paula

A vida tem uma pedagogia curiosa. Às vezes, irônica. Às vezes, profundamente sábia. Uma dessas lições aparece naquela frase que provoca o riso e, logo depois, o pensamento: “A carne só cai no prato do vegano.”

À primeira vista, parece apenas uma brincadeira. Mas, quando olhamos com mais atenção, percebemos que há nela uma verdade filosófica e espiritual bastante profunda. A vida raramente nos testa oferecendo exatamente aquilo que desejamos. Ela nos testa oferecendo aquilo que já decidimos não depender.

O vegano não recusa a carne por falta de acesso, mas por escolha. Quando a carne cai em seu prato, ela não é tentação — é confirmação. Confirmação de valores, de coerência, de um caminho assumido com consciência. O prato, nesse caso, não fala do alimento; fala da maturidade.

Assim acontece também na vida. Muitas vezes, aquilo que nos chega já não nos domina. O dinheiro aparece quando já não é senhor. O poder surge quando já não seduz. O reconhecimento vem quando já não é necessidade. A vida parece dizer: “Agora que isso não te governa mais, posso colocá-lo diante de você.”

Do ponto de vista espiritual, isso é ainda mais delicado. Deus não testa nossos desejos mais frágeis; Ele testa nossa fidelidade às escolhas que fizemos quando ninguém estava olhando. A verdadeira tentação não está no excesso, mas na coerência. Não está no prato cheio, mas na liberdade interior de dizer: “Isso não me define.”

Na filosofia da vida, aprendemos que maturidade não é ausência de desejo, mas domínio sobre ele. Não é nunca ter carne no prato, mas saber que, mesmo que ela esteja ali, não manda em você. O espírito amadurecido não luta contra tudo; ele simplesmente não se curva.

Talvez seja por isso que, em muitos momentos, a vida coloca diante de nós exatamente aquilo que superamos. Não para nos provocar, mas para nos lembrar do quanto crescemos. A carne no prato do vegano é um espelho silencioso: revela quem já não é escravo do que vê.

No fim, essa frase nos ensina algo essencial: a liberdade começa quando aquilo que chega já não determina quem somos. Quando o prato pode estar cheio, mas o coração permanece em paz.

Sobre o Autor – Dr. Jairo de Paula

Jairo de Paula é doutor em Psicanálise, escritor e conferencista internacional, autor de 35 livros — entre eles os best-sellers “Uma Marca Chamada VOCÊ” e “INCLUSÃO – mais do que um desafio escolar, um desafio SOCIAL”. Com mais de 10.000 atendimentos clínicos realizados, alia escuta sensível à experiência acadêmica com doutorado em Psicanálise, além de pesquisador em Gestão do Capital Intelectual e criador de programas inovadores como “FAMÍLIA & ESCOLA”. Pensador inquieto e apaixonado por conhecimento, acredita que a verdadeira transformação nasce do poder da escuta e da escolha diária pela felicidade.